Cronicamente Online
- Regina Souza
- há 12 minutos
- 4 min de leitura
Concluo a escrita me perguntando "Será que vou conseguir manter sua atenção por 5 minutos aqui?"
Acordo, checo as notificações do celular, ligo a TV para ouvir as notícias enquanto me preparo para mais um dia de trabalho ou de escola, no trajeto de casa para o trabalho vou conversando e checando as notificações. No trabalho, ligo o computador e passo no mínimo 8h conectada a ele, ao sair, toda a rotina de reconexão ao aparelho móvel permanece como sempre "Ativo" - mente cansada do trabalho, parece um alívio só rolar o feed, quando percebi, já se passaram 3h e já é hora de ir dormir, faço a última refeição, tomo banho e ao deitar... faço a última checagem... "será que em 30min eu perdi alguma coisa?"... E em frações de "segundos" se passaram 16h57min conectados a internet! Esse é o tempo médio de horas por dia que o Brasileiro fica conectado a internet.
Mas será que tenho culpa no cartório de ficar tanto tempo conectada assim? O que você executa para realizar o seu trabalho? O que você utiliza para falar com outras pessoas? Você tem cédulas de papel - muitos nem saberão o que é "cédula" - dinheiro, usamos débito, crédito ou pix! Como você faz para encontrar coisas, pessoas, lugares? Como anda a sua geolocalização? Você tem gravado na memória o número do telefone de alguém?
Uma reportagem recente da CNN Brasil chamou a atenção para um dado impressionante: o brasileiro pode passar, em média, 52 anos da vida conectado à internet, o equivalente a aproximadamente 70% da expectativa de vida do país. Além disso, permanecemos cerca de 116 horas por semana online, sendo aproximadamente 42 horas destinadas ao entretenimento digital.
Embora esse número pareça alarmante, a pergunta que mais me interessa como psicóloga clínica não é "quantas horas passamos nas telas?", mas o que essa conexão constante está fazendo com a nossa saúde mental.
Nos últimos anos, a literatura científica avançou muito nessa discussão. Uma das conclusões mais importantes vem da revisão sistemática com meta-análises publicada por Ahmed et al. (2024), no Journal of Affective Disorders. Os autores demonstram que o simples tempo de uso das redes sociais explica apenas uma parte do problema. As associações mais fortes com ansiedade, depressão, pior qualidade do sono e menor bem-estar psicológico aparecem quando o uso se torna problemático — ou seja, quando a pessoa perde o controle sobre o comportamento, sente necessidade constante de verificar notificações e percebe prejuízos na rotina, mas tem dificuldade de reduzir esse uso.
Esse dado muda completamente a forma como devemos olhar para a tecnologia. O foco deixa de ser apenas "quanto tempo" e passa a ser como nos relacionamos com as telas.
Outra revisão recente, publicada por Ives et al. (2025) na Anales de Pediatría, amplia ainda mais essa reflexão ao mostrar que o maior risco surge quando as telas começam a substituir experiências fundamentais para o desenvolvimento humano. Sono de qualidade, atividade física, brincadeiras, convivência familiar e relações presenciais são elementos essenciais para o funcionamento saudável do cérebro e das emoções.
Os autores destacam que crianças e adolescentes merecem atenção especial, pois o córtex pré-frontal — região responsável pela atenção, planejamento, autocontrole e regulação emocional — ainda está em desenvolvimento. Nessa população, o uso excessivo de telas tem sido associado à pior qualidade do sono, dificuldades de atenção, maior frequência de sintomas de ansiedade e depressão e agravamento dos sintomas em jovens com TDAH.
Mas essa discussão também diz respeito aos adultos.
Uma revisão sistemática publicada em 2026, no Romanian Journal of Psychiatry & Psychotherapy, mostrou que o uso problemático da internet está associado a dificuldades de atenção sustentada, maior distraibilidade e redução do controle inibitório — justamente as habilidades cognitivas que utilizamos para manter o foco, organizar tarefas e resistir às constantes interrupções digitais.
Talvez isso explique por que tantas pessoas chegam ao consultório dizendo: "Não consigo mais me concentrar para ler um livro" ou "Parece que meu cérebro precisa estar sempre recebendo um novo estímulo."
Isso não significa que a tecnologia seja uma vilã. Muito pelo contrário. Ela aproxima pessoas, facilita o trabalho, amplia o acesso ao conhecimento e faz parte da nossa vida cotidiana. O desafio é perceber quando ela deixa de ser uma ferramenta e passa a ocupar espaços que antes eram preenchidos pelo descanso, pelas relações humanas, pela contemplação e pela presença.
A própria ciência aponta caminhos. Um estudo publicado no JAMA Network Open (2025) mostrou que apenas uma semana reduzindo o uso das redes sociais esteve associada à diminuição de 16,1% dos sintomas de ansiedade, 24,8% dos sintomas de depressão e 14,5% dos sintomas de insônia em jovens adultos. Embora sejam necessários mais estudos para avaliar a duração desses efeitos, os resultados mostram que pequenas mudanças de hábito podem produzir benefícios significativos para o bem-estar psicológico.
Talvez o maior desafio da nossa geração não seja aprender a usar a tecnologia, mas aprender a nos conectar com outras pessoas "presencialmente", estamos cada vez mais on e menos off, e isso requer cuidado, quanto mais isolados ficamos, menos habilidades sociais e relacionais desenvolvemos - "Há diversos estudos científicos que associam a solidão de seres humanos a sentimentos de hostilidade em relação a outras pessoas" (Hertz, 2021)
Viver conectado o tempo todo não significa, necessariamente, estar presente na própria vida.
Referências
AHMED, Oli; WALSH, Erin I.; DAWEL, Amy; ALATEEQ, Khawlah; OYARCE, Daniela Andrea Espinoza; CHERBUIN, Nicolas. Social media use, mental health and sleep: A systematic review with meta-analyses. Journal of Affective Disorders, v. 367, p. 701–712, 15 dez. 2024. DOI: https://doi.org/10.1016/j.jad.2024.08.193.
CALVERT, Elombe; CIPRIANI, Maddalena; DWYER, Bridget et al. Social media detox and youth mental health. JAMA Network Open, Chicago, v. 8, n. 11, e2545245, 2025. DOI: https://doi.org/10.1001/jamanetworkopen.2025.45245.
CNN BRASIL. Brasileiros estão passando 52 anos da vida diante de telas, diz pesquisa. São Paulo: CNN Brasil, 2026. Disponível em: https://www.cnnbrasil.com.br/tecnologia/brasileiros-estao-passando-52-anos-da-vida-diante-de-telas-diz-pesquisa/. Acesso em: 7 jul. 2026.
HERTZ, Noreena. O século da solidão: como restaurar as ligações humanas em um mundo fragmentado. Tradução de Marina Vargas. Rio de Janeiro: Record, 2021
IVES, Lefa S. Eddy; PATÓN, Abigail Huertas; BURATTI, María Azul Forti; ÁLVAREZ PITTI, Julio; SALMERÓN-RUIZ, María Angustias; RODRÍGUEZ HERNÁNDEZ, Pedro Javier; REAL-LÓPEZ, Matias. Impact of screen and social media use on mental health. Anales de Pediatría (English Edition), v. 103, n. 2, art. 503909, ago. 2025. DOI: https://doi.org/10.1016/j.anpede.2025.503909.
MALACRIDA, Cristina; BĂDESCU, Andreea; et al. Attention in the digital era: the influence of problematic internet use on attention parameters in adults – a systematic review. Romanian Journal of Psychiatry & Psychotherapy, v. 28, n. 1, p. 46, mar. 2026. DOI: https://doi.org/10.37897/RJPP.2026.1.6




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