Decidir também cansa: o que a Psicologia explica sobre as escolhas que fazemos
- Regina Souza
- há 4 dias
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Provavelmente você já deve ter ouvido aquele ditado "não sei se eu case, ou compre uma bicicleta", ou ter vivenciado alguma dessas situações: passar horas pesquisando antes de comprar um celular, escolher um restaurante ou decidir se deveria aceitar uma nova oportunidade de trabalho?
Você compara preços, lê avaliações, assiste a vídeos, pede opiniões e, mesmo assim, sente que ainda falta alguma informação para decidir. Em outros momentos, a decisão parece surgir quase instantaneamente. Mas, quando ela finalmente é tomada, algo muda: a ansiedade diminui, o desconforto cede espaço ao alívio e a mente parece finalmente encontrar um pouco de silêncio.
Se você se identificou com essa situação, saiba que não está sozinho. Decidir faz parte da vida, mas nem sempre é um processo simples.
Durante muito tempo, acreditou-se que as pessoas tomavam decisões de forma totalmente racional, analisando cuidadosamente todas as alternativas antes de escolher a melhor opção. No entanto, a Psicologia Cognitiva mostrou que nossa mente funciona de maneira muito mais complexa.
Em um dos estudos mais influentes da área, Tversky e Kahneman (1974) demonstraram que utilizamos heurísticas, ou seja, atalhos mentais que tornam as decisões mais rápidas, mas também podem nos levar a erros de julgamento. É por isso que, muitas vezes, uma única opinião negativa sobre um produto pesa mais do que dezenas de avaliações positivas ou que uma experiência recente influencia nossa percepção de risco mais do que dados objetivos. Como escreveu Kahneman (2012, p. 25), "a confiança que as pessoas têm em suas crenças não é uma medida da qualidade das evidências, mas da coerência da história que conseguiram construir." Muitas vezes, decidimos menos pelos fatos e mais pela narrativa que nossa mente criou sobre eles.
Outro aspecto importante é que não decidimos apenas com base na lógica. A forma como uma situação é apresentada também interfere em nossas escolhas. Kahneman e Tversky (1981) mostraram que uma mesma informação pode gerar decisões completamente diferentes dependendo de como é comunicada. Esse fenômeno, conhecido como efeito de enquadramento ou framing effect, explica por que promoções, manchetes e até conversas podem influenciar nossa percepção sem que percebamos. Trazendo isso para o nosso cotidiano, principalmente quando vivemos na era dos algoritmos, a construção do pensamento lógico e racional é tomada por tudo aquilo que consumimos no scroll infinito de reels (aquele efeito infinito de rolar a tela nas redes sociais) com liberação de dopamina constante.
Além disso, nem sempre buscamos a decisão perfeita. Herbert Simon (1955) propôs o conceito de racionalidade limitada, argumentando que nossas escolhas acontecem dentro dos limites do tempo, das informações disponíveis e da nossa capacidade cognitiva. Em vez de procurar a melhor alternativa possível, frequentemente escolhemos aquela que parece suficientemente boa para resolver a situação naquele momento.
Mas por que algumas pessoas sofrem tanto para decidir?
Nem sempre a dificuldade está na decisão em si. Muitas vezes, o sofrimento está relacionado ao medo de errar, à necessidade de controlar o futuro ou à crença de que existe apenas uma escolha correta. Quando isso acontece, cada decisão passa a carregar um peso muito maior do que realmente deveria.
É comum observar pessoas que permanecem paralisadas diante de escolhas relativamente simples enquanto imaginam todos os cenários negativos possíveis. Em contrapartida, outras decidem rapidamente e seguem em frente, mesmo sabendo que nenhum caminho oferece garantias absolutas.
Na clínica, esse movimento aparece com frequência. Pessoas ansiosas costumam descrever a sensação de que precisam ter absoluta certeza antes de agir. Pessoas perfeccionistas acreditam que uma escolha equivocada poderá comprometer todo o futuro. Outras vivem revisitando decisões passadas, imaginando como seria a vida caso tivessem escolhido outro caminho.
No entanto, talvez o sofrimento não esteja na decisão em si, mas na dificuldade de aceitar que viver envolve incertezas.
Nenhuma escolha vem acompanhada de garantias. Sempre haverá informações que não possuímos, variáveis que não controlamos e resultados que só poderão ser conhecidos depois da decisão tomada.
Talvez seja justamente isso que torna a decisão um ato de coragem.
Fazer uma escolha não significa ter certeza de que tudo dará certo. Significa reconhecer que, apesar das dúvidas, seguimos em frente.
Talvez a pergunta mais importante não seja: "Como tomar sempre a decisão certa?", porque no fim, ela não existe!.
Talvez seja: "Como aprender a decidir mesmo quando não existe certeza?"
A psicoterapia não existe para dizer qual decisão você deve tomar. Ela oferece um espaço para compreender os pensamentos, emoções e crenças que participam desse processo. Quando entendemos melhor por que decidimos como decidimos, também nos tornamos mais livres para escolher caminhos coerentes com quem somos — e não apenas com os nossos medos.
Porque, no fim das contas, amadurecer talvez seja isso: perceber que a melhor decisão nem sempre é a perfeita, mas aquela que nos permite continuar vivendo, aprendendo e construindo a própria história.
Se você percebe que a indecisão tem gerado sofrimento frequente, adiado projetos importantes ou aumentado sua ansiedade, a psicoterapia pode ser um espaço para compreender os pensamentos, emoções e crenças que influenciam esse processo. Mais do que encontrar respostas prontas, ela ajuda a desenvolver segurança para fazer escolhas alinhadas aos seus valores e à vida que deseja construir.
Referências
ARONSON, Elliot, Timothy D. Wilson, Robin M. Akert; tradução Geraldo José de Paiva. Cognição Social: Como Pensamos sobre o Mundo Social. Psicologia Social. Rio de Janeiro, Ed. 8, LTC, 2015.
KAHNEMAN, Daniel. Rápido e devagar: duas formas de pensar. Rio de Janeiro: Objetiva, 2012.
SIMON, H. A. A behavioral model of rational choice
. Quarterly Journal of Economics, v. 69, n. 1, p. 99-118, 1955.
TVERSKY, A.; KAHNEMAN, D. Judgment under uncertainty: Heuristics and biases. Science.,v. 185, n. 4157, p. 1124-1131, 1974.
TVERSKY, A.; KAHNEMAN, D. The framing of decisions and the psychology of choice. Science, v. 211, n. 4481, p. 453-458, 1981.


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